quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Tempo de Janela

Upsss, a Janela está empenada. Deve ter inchado com a humidade e agora não abre.
Enquanto o carpinteiro não resolve o problema estamos como de custume, das 21 às 22h, no chat , encontram o link AQUI.
Vamos tentar voltar assim que possivel, haja Janela, que o Tempo urge.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Sidoso #6, Trainspotting

Fui-me esquecendo da heroina, voltei ao prazer do fumo do sg filtro e dos charros. Comecei a ganhar cada vez mais autonomia e alguma confiança da minha mãe, até porque não consigo mesmo beber álcool e pareço muito satisfeito por voltar a fumar ganza atrás de ganza. Isso e o clube de vídeo primeiro, a tv por cabo depois, são a minha vida. A expo vai e vem, o tempo passa e eu sempre na mesma, medicação para a toxoplasmose sempre, sem falha. Para o VIH nada.
Consciente que tenho pouco tempo de vida, tento resolver umas pontas pendentes, restos de uma juventude um pouco irrequieta. E descubro da pior forma que a palavra SIDA assusta mesmo. Fica a minha consciência tranquila com uma ponta pendente, não se pode ter tudo.

Entretanto...
Sinto-me cada vez mais como o Obélix:
-Panoramix, sinto-me tão fraquinho...
-É como um vazio aqui...

Um casal amigo, ela desde sempre, ele desde o fim da adolescência, meus vizinhos e também seropositivos faziam o que podiam para me tentar tirar do torpor sem muito sucesso. E no entanto, o seu exemplo era formidável. Ex-toxicodependentes, tinham conseguido reconstruir a vida. Emprego, casa própria, carro, saúde, tv e maquina de lavar, o poema todo. Mas eu não sabia o que era pior. Estar ali fechado com pena de mim ou voltar a enfrentar a vida e as suas responsabilidades e todos os bla, bla, bla inerentes como eles faziam. E eu estava fora das probabilidades a favor nos meus cálculos. Não era entrar em campo derrotado. Eu recusava-me a jogar.
Tudo isso mudou no principio de um verão. Eles convidaram-me a acompanha-los numas mini-ferias a Ceuta. Eu sentia-me já mesmo muito fraco e pensei que poderia ser bem a ultima oportunidade de conhecer Marrocos...ou pelo menos, algo parecido. Foi um suplicio para todos. Apanhamos um Junho muito quente e eu passei a viagem toda cheio de febres, doido com o calor de dia, desesperado com frio à noite. Sempre com um humor de cão espancado que nada fazia por melhorar a situação. Mas uma noite percebi, finalmente!
A diferença entre estar ali a tremer no saco cama e a possibilidade de poder estar a apreciar a noite na Andaluzia eram aquela meia dúzia de comprimidos que eles tomavam diariamente. Eu estava errado, eu podia vencer aquilo!
Quando chegar a Lisboa, vou começar a ser seguido e a tomar os anti-retrovirais. Vou dar a volta a isto.
Era tarde de mais....Ou quase.
Eu comecei realmente a tratar de ser seguido, mas a romaria médico de família - credencial - receber credencial - marcar consulta no Hospital leva o seu tempo e no fim de Julho a minha mãe, alarmada com o meu estado, pede à mãe do meu filho para nos acompanhar às urgências do S. José. Eu já não notava esses pequenos sinais reveladores da gravidade do assunto. Deve fazer um calor de estalar pedra lá fora e eu estou a tremer de frio dentro do meu casacão militar, sentado na sala de espera do Hospital. Não penso na morte. Aliás, não consigo pensar em mais nada senão ir para casa dormir, mas não tenho forças para enfrentar a minha mãe que ainda por cima se precaveu trazendo a Ana. Deixo-me vaguear mentalmente por S. José. Como qualquer alfacinha daquela zona da cidade, conheço-o bem e desde sempre. Bzzzzzz, os seus azulejos, bzzzzz, as escadas de pedra, bzzzzz, as de ferro, bzzzzz, o eco dos passos nos longos e altos corredores....bzzzzz.
Finalmente estou sentado à frente de uma médica que lê o resultado dos meus exames. Eu sou neutro, nada do que ela possa dizer me vai afectar. Eu só preciso de dormir, isto já passa...
...Tendo em conta o resultado dos seus primeiros exames, achávamos melhor ser internado. Você quer?
Eu, vendo a oportunidade para me escapar dali respondo bem disposto:
-Beeem, se isso é opcional:
Não!
Imediatamente chegam-me choros, fungadelas e suplicas vindos de trás de mim.
-Alexandre, tu não podes ir para casa...
-Pensa no teu filho...
Virei-me para traz a pensar -Mas elas estão mesmo a falar a sério... e isto vai estragar as férias, deixa lá ver, elas estão mesmo a sério?
Estavam.
De qualquer forma uma lágrima de uma delas tinha sido argumento suficiente e aquilo arriscava em tornar-se uma cena de Opera muito rapidamente. Nunca as tinha visto assim.
-Tchééé, o que para ai vai, ok, ok....
Virei-me para a frente, resignado mas ainda bem disposto:
-Bom, tá bem. Mas ninguém me tira a minha pulseira de cabedal do tornozelo.
Passei as horas seguintes a explicar, a ameaçar e a seduzir cada novo turno de enfermeiros que entrava porque é que NÃO me iam tirar a pulseira. Sabia que passando o S.O. a coisa tava safa, era só não baixar a guarda. E assim foi. A pulseira subiu comigo à enfermaria. Ela, eu e a minha teimosia. Mas sempre muito bem disposto.
Uns dias mais tarde o chefe da equipa medica vem falar comigo. Gosto dele, é um tipo bem disposto. Eu também continuo muito bem disposto e sinto-me melhor.
Ele pergunta-me se eu sei o que o que são CD4. Nessa altura já sabia.
-Você entrou aqui com 4.
Tinha feito bem em ter trazido a teimosia.
A pulseira? Partiu-se com o uso há já muito tempo.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Sidoso #5, NO FUTURE!

Esta parte é complicada de escrever.
Não porque seja dolorosa de recordar. É complicado é por tudo pela ordem certa. Tenho é que misturar a lógica com o amontoado de recordações difusas deste período com cerca de 3 anos. Na sua maioria é um longo nada, sou eu em casa à espera da morte. Pelo meio, sempre os meios, dão-se alguns acontecimentos que irão determinar todo o meu futuro como seropositivo.
Complicado, porque eu na altura não conseguia ver nenhum.
Nunca consegui perceber se sou realmente muito traumatizado pelo facto de estar infectado, porque nunca consigo ultrapassar completamente o facto de ter ficado deficiente. A sida foi-se tornando na minha arma de arremesso, no veiculo da minha revolta. Vazio, gritava gritos mudos. Não procurei ajuda, não procurei saber, não havia rumo, cura, regresso.
Primeiro deixei a fisioterapia, fiquei farto de ver as melhoras dos outros.
Como já mencionei, na altura o Hospital dos Capuchos não tinha a especialidade de infecciologia. Foi o chefe da equipa responsável pelo meu internamento que durante os primeiros tempos me passava as receitas para os anti-retrovirais. Sem consulta. Eu ia ter com ele e onde o apanhasse, ele passava-me as receitas. Um dia disse que eram as ultimas, eu tinha de arranjar um médico especialista e ser seguido por ele.
Eu pura e simplesmente deixei de tomar a medicação anti-retroviral e continuei a tratar fielmente a minha infecção cerebral de estimação. Deve ser um dos sintomas iniciais da doença a parvoíce aguda. Ou eu já era um grande parvo e a doença apenas realçou esse facto. Eu ia morrer, tinha a certeza, mas continuava a prevenir-me com fervor daquilo que me tinham apresentado como maior ameaça. E nem assim o fazia correctamente. Um dos efeitos secundários do medicamento para a toxoplasmose é a anemia. Deve ser acompanhado por um bom tratamento vitamínico. Ora eu já tomava químicos a mais e ia morrer, de qualquer forma. Tão a perceber a lógica? Nem eu.
O resultado pratico é que eu, com o organismo ainda todo muito debilitado, deixei de prevenir uma doença que me ataca o sistema imunitário e tomava sem qualquer compensação um medicamento que me provocava anemia. Como é santa, a ignorância. Como é feliz, o ignorante.
Quando saia, tinha cada vez mais umas coisas que eu apelidava no gozo de ataques de sida. Era como se fosse desligado, sem a pilha, sem corrente, power off...Uma sensação de cansaço...Pfffff.
Depois passavam.
Parvalhão! Ataques de sida?
Mas eu já tinha visto o meu destino, ou não?
Uma noite, poucos meses depois de ter alta um amigo da família levou-me à Abraço, no Bairro Alto. Deixou-me lá e foi-se embora. Eu tenho a noção que nessa altura era um farrapo. Andava com dificuldade, ainda não dominava muito bem todos os músculos da cara (ainda me faltam um ou dois, hoje em dia) e tinha perdido qualquer brio na minha pessoa em publico. À entrada, depois de coxear as escadas, recebe-me o olhar frio, desagradável, antipático de uma voluntária que cruzo sem nos falarmos. Na sala, vazia, as luzes baixas e o silencio sentado nos sofás faziam-me lembrar a casa de um bacano qualquer no meio de uma sessão de coca. Só faltavam os actores porque o cenário estava lá todo. Num dos lados da sala fica um pequeno nicho transformado em escritório/recepção. Atrás de uma velha secretária de madeira, iluminado por um clássico candeeiro de mola, está um rapaz que reconheço imediatamente de um artigo de revista que tinha lido antes de saber que estava infectado. Seropositivo, tinha feito parte de um artigo de contornos inéditos em Portugal onde vários seropositivos davam a cara, alguns com a mulher ou marido, um familiar ou amigo. Não vou fazer grandes juízos ou considerações sobre a pessoa. Anos mais tarde, ao falar com quem ocupava o lugar dele, explicaram-me que a Abraço reconhecia o erro de ter aquela pessoa, naquele lugar, naquela altura. Também não acho correcto ser muito descritivo sobre a nossa entrevista pessoal. Porque o foi nos dois sentidos.
Eu não gostei do que me contou sobre ele, mas não foi desagradável ou antipático. Creio que foi ele próprio. E não me mentiu, não me enganou, nem falsas esperanças. Nem falsas nem de outro tipo qualquer. Só me confirmou as portas fechadas, não havia janelas. Não era um Aguente-se! -Faça-se a vida! Era apenas Aguente-se!
Durante muito tempo acusei a Abraço de ter contribuído para a minha certeza em como estava condenado. Sei agora que fui injusto. Eu esperava encontrar deus, um milagre, A solução e apenas encontrei uma equipa mal preparada para receber casos como o meu.
Depois da nossa entrevista ele leva-me para a outra sala da casa, onde ia começar uma reunião de auto-ajuda e vai-se embora. Para quem não sabe, a ideia das reuniões de auto-ajuda é por na mesma sala um pequeno nº de seropositivos que discutem sobre a doença, trocam experiências, informações, etc. Mas não é mandar 6 ou 7 sidosos para uma sala e dizer-lhes para falarem. Deve haver um moderador, alguém sensível ao facto de haver diversas fases e faces da doença presentes na sala. E ao meu lado está uma rapariga que me conta já ter perdido um bebé e o marido com SIDA e a sala é horrível, pequena e fechada e suada e ela tem realmente um ar de sidosa katé assusta e os outros também tem um ar doentio pra caroço e eu tou pior que eles todos juntos. E as historias eram horríveis e cada uma pior que a outra. Assim que posso fujo dali. Acompanha-me um deles até uma tasca ali no largo da santa casa. Tem um discurso homofóbico muito estranho e oiço falar pela primeira vez em sidosos de 1ª e 2ª. Peço uma mini e descubro que não a consigo beber em tempo útil.

Sidoso #4, Anywhere I lay my head...

Na terceira semana, já estava a fazer fisioterapia. A distancia já não me deixa ter muitas certezas, lembro-me que me levavam de cadeira de rodas e essa era a parte divertida.
Estava completamente a zero e sentia-me um zero. Tinha que repensar tudo e não tinha nada a que me agarrar. Vinha-me à memória não frases batidas mas aquelas conversas de fim-de-noite, já bem fumadas, sobre o que fazia se me visse agarrado a uma cama. A ideia "carta branca" começou a formar-se por essa altura. A coisa era complicada. Eu não tinha morrido mas ia morrer, não estava agarrado à cama mas estava completamente dependente de terceiros. Viver era um incómodo constante.
Regressar a casa não foi tão agradável como pensei que seria. Pela primeira vez, não me sentia em casa. No lar, reconfortado.
Assim que cheguei, toca o telefone. Era para mim. Sentei-me no sofá para atender e a minha mãe encostou-se à ombreira da porta a olhar para mim. Ela conhecia todos os meus amigos. E a mim...
Era o Miguel.
-Tão, soube hoje que tavas no hospital. Já tiveste alta, é?
E eu: "Han , han ..."
-Tão tás melhor? Pá, anda cá a casa dar um fumo e contas-me isso.
"Eeerh ..."
-Estamos à vontade, os meus velhos não estão cá, eu recebi, não queres vir?
Pá, eu ir ai é que não vai dar, tou bué cansado, o dia todo a bulir, sabes como é.
"B'gado Miguel, fica para outra vez, eu também tou cansado."
-Pá, tu é que sabes, vá, fica bem.
Desliguei o telefone. olhei para a minha mãe e estiquei o braço para ela:
-Não me olhes assim, nem sou capaz de me levantar daqui sem a tua ajuda quanto mais...
Mas aquele convite tinha feito um estrago enorme. Saber que o paraíso estava à minha disposição a 300 metros de distancia quando eu mal me conseguia arrastar até lá acima ao quarto era uma informação que tinha dispensado.
E não ia dormir no meu quarto. Por razões que nunca consegui esclarecer bem um dos vidros de uma janela estava partido. Faltam testemunhas e memória minha, fica o buraco. Como os estores também já não desciam há muito tempo, não podia dormir ali.
Tinha de dormir no meu antigo quarto, que tinha passado a ser o do meu filho e agora estava vazio. Puseram o colchão encostado à parede fronteira à janela, fizeram-me a cama e arranjaram-me um penico. Fez-me lembrar um pouco "A metamorfose" do Kafka , mas não havia a carga negativa da família , bem pelo contrário. Eu adorava aquele quarto, sempre tinha sido o "meu" quarto, até há pouco tempo. Mas agora parecia-me noutro tempo, outro quarto. E eu dormia com o colchão no chão desde os 14/15 anos, não achava piada nenhuma a camas.
Mas agora, depois de 3 semanas de cama de hospital com grades subidas, estar tão perto do chão era uma sensação desconfortável . Como quase tudo. Menos uma, de certeza.
A fisioterapia tinha-me mostrado uma carência difícil de saciar:
O tacto humano. O contacto com outra pessoa. Sentir o seu corpo com o meu.
Era ar e água. Era viver.
Tinha fome de pele!
Mas tinha de matar 4 anos e pelo meio quase morrer outra vez até conhecer alguém que tinha um nome para o que me atormentava.

Sidoso #3, Bemvindo ao clube...


Os resultados não chegaram. Tinha havido um erro e foi necessário repeti-los. Esta explicação accionou um alarme lá no fundo. Mas muito no fundo, porquê eu sou o alex e tenho sempre uma sorte do caraças nos azares em que me meto.
Ao fim de semana e meia de internamento, já tinha percebido que girava tudo à volta de ter ou não sida.
Mas o resto não vazia sentido, ainda não sabia que todos os meus sintomas se encaixavam perfeitamente num diagnóstico:
Toxicodependente com Sindroma de Imuno Deficiência Adquirida, vulgarmente conhecido por Sidoso.
O Sr. Dr. pôs-se de cócoras à minha cabeceira e lá me segredou a sentença. O primeiro teste tinha dado positivo, o segundo tinha sido para confirmar. Eu mordi os lábios e perguntei-lhe quanto tempo tinha. A resposta diplomata e cheia de lugares comuns , entrou-me a 100, saiu a duzentos e para mim apenas significava uma coisa:
Estás fodido!
Esperei até a minha mãe chegar, para podermos chorar aquilo tudo de uma vez por todas.
Eu tinha contraído toxoplasmose cerebral, devido à falência do meu sistema imunitário , traído pelo vih . Também tinha hepatite C, mas não estava activa. Havia mais umas coisitas, mas nada que não se resolvesse.
O problema maior eram as consequências da toxoplasmose . Esta é uma infecção comum nos seres humanos, que normalmente conseguem desenvolver anticorpos contra ela. A não ser nos casos em que o sistema imunitário esteja débil , como no caso das grávidas , de cancro ou vih /sida, por exemplo. A minha infecção foi no cérebro , no lado direito. Deve ter achado que o espaço estava desocupado. A minha dor de cabeça era uma bola de pus com o diâmetro de uma toranja. O meu cérebro estava a desfazer-se e no processo as comunicações com o braço, perna e face esquerda foram afectadas com severidade. E ainda ressacava. Começava uma ultima semana de inferno, desta vez já com os sentidos bem despertos . Com a merda toda a bater-me na cara. Não conseguia dormir, a almofada parecia-me um tijolo. Ensopava ambos os lençóis a ponto de pedir às enfermeiras de serviço durante a noite para os trocarem . Já fartas das minhas eternas reclamações, tinha que os torcer até pingarem para lhes provar que não exagerava. Mesmo assim, trocavam sempre um apenas.
Uma manhã perguntei a uma porque não me davam Morfex ? Tinha a certeza que isso me iria por a dormir. Ao que ela me respondeu que era o que eu tomava desde o 1º dia. Balbuciei, atrapalhado: "Bom, então deviam aumentar-me a dose, não?"
Não tinha apetite e a comida não sabia a nada, o tabaco tinha um gosto horrível . Pedi papel e lápis , tentei fazer um "smile " e...percebi, com muita raiva minha, que nada seria como dantes.

Sidoso #2, Koma: :Kino

(...)"Wake Up! You can't remember where it was
Had this dream stopped?

Shake dreams from your hair
My pretty child, my sweet one.
Choose the day and choose the sign of your day
The day's divinity
-------------------First thing you see."(...)
Ghost Song - The Doors/Jim Morrison

Sou levado ao colo. Como uma criança. E é assim que me sinto, leve como uma criança.
Sonho e sonho que sou de novo criança ou estou apenas leve como uma criança e não sonho, sou carregado?

Não houve um acordar, um momento preciso.
Fui acordando, um submarino que emerge de um mar de....sonhos?
E de pesadelos. E de alucinações. As alucinações ainda hoje acho piada. Das que me lembro.
Não me lembro de perguntar insistentemente por "x" e "y" pessoas à minha mãe.
"Porque não entram eles?", perguntava eu.
"Mas não veio ninguém comigo", respondia a minha mãe.
"Vieram sim, eu vi-os lá fora no corredor!"
Das que me lembro a minha mãe achava menos piada ainda. Era quando me encontrava sentado no meio da cama, a olhar para o tecto, de braço esticado a apalpar o ar, sorriso de demente na cara retorcida.
Era a felicidade do vegetal, e eu sei exactamente o que me fascinava nesses momentos:
Eram as serpentinas coloridas que saiam dos detectores de incendio como se estivessem presas a uma ventoinha, estavam mesmo ali, ao alcance da mão. E os ferros pendurados nos suportes da cortina que cada cama tem. Esses dançavam para mim, mas fugiam quando os tentava agarrar.
Dos pesadelos, não tinha. Era.
Não sei quando me amarraram à cama com ligaduras, mas sei porque o fizeram.
Já não havia dores, sono, sonhos, real ou fantasia, o meu cérebro desligou tudo o que podia desligar menos uma coisa. Uma ideia. Fixa.
"Estou a ressacar, isto é tudo a ressaca. Tenho de sair daqui!"
Pensava e gritava-o. E fazia-o.
...Ou tentava.
Fartas de me apanhar do chão, as enfermeiras amarraram-me.
Mas não sabiam com quem se estavam a meter, lembro-me de pensar e com os dentes desamarrar uma mão, com essa mão desamarrar a outra, agarrar-me às protecções laterais da cama que estavam subidas, rolar sobre elas e Pum, Catrapum! Estatelado mais uma vez no chão, arrastando os adereços todos atrás, soro para um lado, medicação para o outro, eu semi enfiado debaixo da cama do vizinho, nariz virado para a arrastadeira.

Quando comecei a perceber que não ia a lado nenhum sozinho a culpa era inicialmente das enfermeiras. Tinham-me amarrado e agora estava tão dormente que não conseguia andar. As malvadas!
Logo me desenganei. Algo estava errado. Não era apenas o braço e a perna esquerda que eu não conseguia mexer. A face desse lado também estava rígida, babava-me descontroladamente e notava agora, mal era capaz de falar.

A explicação médica era um longo:
"Bla bla bla bla bla, fizemos uma bateria de exames, estamos à espera dos resultados, bla bla bla..."
Sim, esperemos os resultados.
Venham de lá, esses resultados!